A VIOLÊNCIA DOMÉSTICA TAMBÉM NA IGREJA

A VIOLÊNCIA DOMÉSTICA TAMBÉM NA IGREJA

Cada cultura, cada povo, cada pessoa, possui uma história. A história é construída de factos, e embora a Palavra de Deus não seja factual, isto é, um relato jornalístico do que aconteceu, é uma inspiração divina, em cada passo que vamos percorrendo na vida. Ao lermos cada passo do Antigo ou Novo Testamento encontramos o percorrer de povos e comunidades que vivem um quotidiano, que é no tempo e no espaço, o espelho de cada interação de relações entre os seres vivos e o divino. Ao percorremos o estudo histórico do Antigo Testamento vamos aprendendo que a vida se aproxima mais do Amor e da Misericórdia. A violência doméstica não escapa em cada patamar que se percorre. Abraão tinha uma mulher Sara, que não lhe “dava” filhos, apossou-se da sua escrava Agar – como pedido da sua esposa -, da qual teve um filho Ismael, quando Sara fica grávida de Isac, Sara e Abraão, violentamente, despedem-na e mandam para o deserto. Hoje, não concebemos tal! O mesmo Abraão, um nómada, ao atravessar o território do Egito, com medo de que o matassem serviu-se, como escudo humano, da sua mulher Sara, designando-a como irmã, para que as autoridades locais se servissem dela sexualmente e ele sobrevivesse. Hoje, não concebemos tal! E a filha de Jefté! Jefté era um juiz de Israel, que ao ver o seu país invadido promete oferecer a sua única filha a Deus se lhe concedesse a vitória. Saiu vitorioso e sacrificou a sua filha, em sacrifício ritual. Hoje, não conceberíamos tal! E o sábio rei Salomão que tinha mil concubinas? Hoje não concebíamos tal! E Tamar, filha do Rei David seduzida pelo seu meio-irmão Amón, que a viola. Hoje não concebíamos tal!

Chegados ao Novo Testamento e nos primórdios da igreja de Jesus, temos outros tempos. A história nos conta. Nesses tempos e geografias, por onde andava Jesus, as mulheres deviam obediência aos seus maridos – que, diga-se, não escolhiam -, sendo comparadas ao mais baixo que existia. Porém, Jesus isso não faz e seriam muitas as mulheres que acompanhavam Jesus, como discípulas e apostolas. Temos o exemplo de Maria de Magdalena, referida sempre nos evangelhos em primeiro lugar – só em São João e aquando do ministério na Galileia, está em segundo-, que, sendo possuidora de enorme fortuna, caminhava ao lado de Jesus. Há quem lhe chame a “apostola dos apóstolos”, mas, é engano, ela era apostola de Jesus. Joana, que era mulher de Cusa, administrador de Herodes e Susana, Salomé, Maria, mãe de Tiago, o menor e de José, Maria, mãe de Jesus e tantas outras mulheres, cujos nomes não sabemos. Não era natural falar nas mulheres, talvez por isso não saibamos mais nomes. Jesus veio dar a volta no que se refere às mulheres, veio trazer uma Boa Nova a da liberdade e igualdade entre homens e mulheres, tão longe, pois, do que nos conta o Antigo Testamento. Poderíamos, até, afirmar, com propriedade, que veio devolver a dignidade que Deus deu aos primeiros homens e mulheres, como podemos apreciar no poema épico e mítico das figuras de Adão e Eva. Depois do assassinato de Jesus, temos tantas mulheres – como poderemos ler nas cartas do apóstolo Paulo -, da presença da mulher nos destinos sinodais da igreja primitiva.

A Igreja é uma família, digamos a família das famílias, e luta contra a violência doméstica no seu interior. A família de hoje, tempo histórico e aqui, enquanto a sociedade admite uma igualdade de direitos e deveres entre homens e mulheres, não pode sancionar a violência sobre as mulheres. O “bater” numa mulher é crime, como o “bater” no homem, mas a nossa sociedade – em algumas latitudes -, já conseguiu entender que isso é um insulto à nossa civilização. Todos e todas são Filhos e Filhas de Deus. Mas se não admitimos a violência doméstica, numa família, como Igreja, como admitimos que essa mesma igreja, nestes tempos de Jesus, continue a sancionar a mulher, por ser mulher! Há uma diferença entre homens e mulheres, uns têm os cromossomas XX (feminino) e outros XY (masculino). É esta diferença que admite a violência que a Igreja exerce sobre as mulheres?
Numa família o “bater” não significa só o insulto físico, esse até, tantas vezes, é o que menos deixa sequelas, mas conceder uma indignidade de as mulheres não poderem Ser (ontológico), e nas igrejas não poderem servir Jesus, em todos os domínios da sinodalidade, e, se não é assim, não venham falar em corresponsabilidade. Existem igrejas onde as mulheres podem assumir todos os ministérios, outras em que as mulheres não podem ser bispas e outras em que não podem ser nada, exceto servir os decisores, que são homens.

Tantas histórias de violência sobre as mulheres, tantas histórias sobre a dedicação das mulheres a Jesus, que a violência doméstica – porque é família -, na Igreja sobre a mulher, é um facto, mas um enorme erro na igualdade de todos os seres humanos, teológico, doutrinário, bíblico, exceto nas leis que os homens fizeram.

Já é tempo, de quando falamos em igreja como família, sabermos que Jesus, nunca quis que as mulheres fossem excluídas e se o quisesse, não era o Filho de Deus.

Joaquim Armindo

Pós-doutorando em Teologia
Doutor em Ecologia e Saúde Ambiental
Diácono – Porto – Portugal

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