Porto, Portugal: HOMILIA NA SOLENIDADE DA IMACULADA CONCEIÇÃO/2020 E ORDENAÇÃO DE DIÁCONOS PERMANENTES

HOMILIA NA SOLENIDADE DA IMACULADA CONCEIÇÃO/2020 E ORDENAÇÃO DE DIÁCONOS PERMANENTES

A carícia de Deus

Caros ordinandos, com a vossa ordenação, esta Diocese do Porto atinge o número simbólico dos cem Diáconos Permanentes. E juntais-vos aos cinco Padres e oito Diáconos em ordem ao sacerdócio que, neste ano civil de 2020, já foram ordenados para o serviço diocesano. Números excecionais que atestam, fundamentalmente, duas coisas: que Deus continua a colocar no coração dos seus amigos a semente da vocação ao ministério ordenado e que muitos, generosos e desprendidos, respondem positivamente ao seu convite para com Ele colaborarem no mistério da salvação.

Sim, como sabemos a partir dos próprios fundamentos mais básicos da teologia, ninguém se ordena para seu benefício pessoal ou mesmo para facilidade da sua salvação. O ministério ordenado é sempre uma carícia que Deus faz ao seu povo para o servir, para o guiar, para transformar em canto festivo o cansaço que, por vezes, se experimenta na longa caminhada pelas vias estreitas da salvação. Uma carícia que se faz mediante homens oficialmente mandatados pelo Sacramento da Ordem. Para o compreendermos, consideremos um certo paralelismo entre este serviço ministerial e a Imaculada Conceição da Virgem Santa Maria, em cuja Solenidade sois ordenados.

Logo nos primórdios da humanidade, dá-se uma espécie de bifurcação: há um plano de Deus que é de tríplice harmonia (das pessoas com Ele mesmo, das pessoas entre si e com a natureza), mas a humanidade teima em seguir pelas vias de uma autonomia de costas voltadas para o Criador que a conduz ao trabalho penoso, à desavença, à dor, ao sofrimento e à morte. Não obstante, Deus não desiste da oferta da plenitude da felicidade. E, porque a sua misericórdia é infinita, revela um plano de salvação que passa pela proximidade efetiva e pelo amor oblativo, única forma de conquistar os corações: o envio de um Salvador, o seu próprio Filho, Jesus Cristo, e a eleição d’Aquela que o trará ao mundo.

Frente a uma humanidade que se pretende constituir como único juiz do bem e do mal e, desse modo, seguir por um caminho contrário ao que se lhe tinha indicado, na sua misericórdia, Deus não desiste de fazer ver à pessoa que é no seu amor que encontramos o amor, que é na liberdade com que nos trata que encontramos a liberdade, que a obediência ao seu plano garante a felicidade que buscamos, que somente nos descobrimos como fraternidade de irmãos quando fizermos d’Ele o centro de tudo e de todos, que só n’Ele obtemos asas para ultrapassar os abismos profundos da dor, do sofrimento e da morte.

A Imaculada Conceição coloca-se como metáfora e modelo desta humanidade que se deixa cativar pelo seu Senhor. Por isso, ela é imagem da Igreja por meio da qual a salvação chega aos confins da humanidade. Podemos, então, cantar um cântico novo, pois o Senhor fez maravilhas, como garantia o salmo responsorial. E devemos ressaltar o contributo singular de Maria de Nazaré para esta história da salvação: ela é a verdadeiramente “cheia de graça”, Aquela que está com Deus e com quem Deus está, enfim, a “bendita entre todas as mulheres”. E tudo isto porque Deus a cumulou das suas graças e a introduziu no mistério da salvação, obtendo d’Ela livre e total correspondência.

Caros ordinandos, pelo Batismo, Deus já vos tinha introduzido no mistério da Igreja, única comunidade de salvação. Na vossa vida familiar, profissional, social e até política, vós já vos esforçáveis por fazer com que este mundo reservasse um lugar para Deus, que deixasse tocar o coração pelo seu amor e que todos, desse modo, entrassem no caminho da salvação. Agora, porém, sois cumulados com a graça do Sacramento da Ordem, não só para receberdes mais forças para atuar esse plano de serviço profético, litúrgico e caritativo, mas, fundamentalmente, para o exercerdes com a autoridade que vos vem de um mandato formal recebido da Igreja.

A Igreja pede-vos para permanecerdes no mundo e iluminar as suas realidades com a luz do Evangelho. Isto é que constitui a grande razão de ser do Diaconado Permanente. Sede, então, a tal carícia de Deus para o mundo, esforçando-vos por compreender as suas aspirações, fomentando e incentivando metas de felicidade, orientando-o com a Palavra da Salvação transmitida de forma simpática e convincente, servindo-o e derramando sobre as suas feridas o óleo da consolação e da cura e, de forma geral, atuando em plena sintonia de unidade com a Igreja e de acordo com o que esta vos pedir.

Sede Diáconos Permanentes no seio do mundo e não sacerdotes do adro ou da sacristia. Dai testemunho de uma sã autonomia das realidades terrenas ou até de uma justa laicidade e não cultiveis a imagem do «quase padre». É que a Igreja confia-vos um ministério de chegar onde nós, os outros Ministros Ordenados, não conseguimos chegar. E nós precisamos de aprender de vós a linguagem que o mundo fala, os conceitos que o movem, as aspirações que o motivam. É este o exemplo da Virgem Imaculada: para ser quem é, para ser “a bem-aventura por todas as gerações”, não deixou de ser a vizinha, a noiva, a Esposa e Mãe para se transformar em uma qualquer «apóstola».

Ela nos obtenha a graça de nos deixarmos cativar pelo Senhor cada vez mais e “de sermos abençoados com todas as bênçãos espirituais em Cristo”.

+ Manuel Linda

Manuel Linda, Bispo do Porto
08 de dezembro de 2020

Link: https://youtu.be/PH2v0I1QOAQ

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