Quando o clero toma o papel dos leigos

QUANDO O CLERO TOMA O PAPEL DOS LEIGOS

Completamente normal – ou melhor, anormal – que sempre que existem conferências, encontros ou convívios entre diáconos, um padre esteja presente – um ou mais -, para dirigir, comentar, explicar, e, sempre, dizer do que se vai falar. Esta é uma forma unilateral contrária à corresponsabilidade e à sinodalidade, os de cima da pirâmide é que dizem o que os de baixo devem ser, acreditar, rezar, e tudo o mais que quisermos. Os padres ou bispos é que sabem, até, vejam bem, se for para dar conselhos sobre o matrimónio ou a vivência da sexualidade, aí estarão eles prontos, com prática?, a dizer como é, ou como não é. Será que a teoria é uma práxis consistente, para falar de esposas, maridos ou filhos, ou, interrogo-me, é mesmo uma prática apreendida. A, estes factos, na igreja católica romana chama-se “clericalismo”, tendo como centro e sabedor de toda a vida o “padre” ou o “bispo”. Mas, também, existe o diácono clerical, que vindo do laicado logo se tornará um “clericalista” a sério, mais até do que aqueles que saem dos seminários. É tudo uma forma de ser cristão clericalista e pedindo o regresso da inquisição, aquela das fogueiras. Se estivesse a funcionar – já tinha sido queimado o papa Francisco -, pelo menos aquele que não troca a sua pena, por favores e negócios – eu -, já estaria em cinzas e bem enterradas, não vão ressuscitar!

Há semanas ouvi uma conferência sobre “O papel dos leigos na Igreja”, e, como tal, um senhor padre foi explicar o que era isto. Não disse nada de novo, repetindo aquilo que o Concilio do Vaticano II, e, vá lá, alguns excertos da encíclica “Todos Irmãos”. Não apoquentou quem estava a ouvir, via ZOOM, nem os leigos e as leigas. Mais: é uma notória falta de mínimo de bom-senso continuar com uma linguagem que nada diz aos seus ouvintes, exceto continuar a afirmar os males que a igreja vai enfrentando. Dizemos sempre a mesma coisa: os jovens afastam-se da igreja após crisma, os (as) catequistas nem sequer vão “à missa”, depois da catequese, e nas suas férias lá não aparecem, e os leigos esses vão correr à beira-mar (se houver mar!), ou nas margens das avenidas e ruas, que lhes faz bem ao corpo e ao espirito. As igrejas estão vazias de leigos (as), e quem lá vai é mais “por medo” de não “ir para o céu” do que outra coisa – como se fosse um negócio, entre Deus e nós. Aquilo que o senhor padre disse é “letrado”, não disse nada de mal, e está tudo certinho, até tem ares de doutor. Só é pena que não tenha ainda compreendido que a sociedade mudou, os leigos não compreendem, embora bem elaboradas, as frases ditas sem qualquer focalização, em Jesus, Morto e Ressuscitado. Parece estarmos a ouvir mais uma homília, sem conteúdo, para a nossa Humanidade. Assisti num domingo destes a uma conferência com o teólogo Leonardo Boff, e é abismal o discurso de um e de outro. Hoje a Humanidade não é compreendida pelos seminários que “formam” ou “deformam” os clericalistas. Bem, fique claro, que não estou contra a ordem apostólica e a sua hierarquia bispo-presbítero-diácono, mas nos meus ouvidos retenho a incapacidade de tantos não escutarem o grito dos povos e o grito da Terra.

Penso que para refletir sobre o papel do leigo na igreja, teria sido melhor chamar um leigo (a), que colocasse o seu pensamento do que é viver na nossa Humanidade e a Fé de Jesus Cristo num universo cada vez mais avesso a isso. Aliás, penso, que os homens e as mulheres deste planeta entendem perfeitamente as palavras de Francisco, bispo de Roma e papa, era só dar mais um jeitinho e o clericalismo se tornar um clero servo e sem poderes. Ouvir um padre, seja qual for, a falar sobre o papel do leigo na igreja e no mundo, é fazer da igreja uma escola de “padrocentrismo”, onde eles são capitularmente o rio e as suas margens e o mar onde desagua o rio. Não digo tal para calar o clero, longe disso, mas para ele saber escutar, mais do que ser ouvido. Por infelicidade nossa isso não acontece, a tal ponto que me leva a refletir sobre as lições

que nos daria um cristão-leigo, a base da pirâmide mais larga, ou mesmo, talvez abençoado pelo Espírito do Senhor um leigo-ateu. Com os ateus e os agnósticos apreendemos a sentir o que diz o Evangelho, sem eles é confrangedor.

Estou a escrever sem qualquer ressentimento, só gostaria que o clero não continuasse a tomar o lugar dos leigos na Igreja. Alguns leigos, também é verdade, são os ratos das sacristias tomando-as com o seu clericalismo, e, portanto, construindo poderes clericais bem-afortunados. O clero e os leigos são todos Filhos e Filhas de Deus e não são “apartados” por “este por serem bispos-padres-diáconos” ou “leigos”, mas por constituírem o Evangelho da Vida. Vamos encontrar tantos leigos-ateus, que são os escolhidos. Vão ver!

Um Santo Natal, mesmo nesta época de pandemia.

Joaquim Armindo

Diácono – Porto -Portugal

Pós-Doutorando em Teologia

Doutor em Ecologia e Saúde Ambiental

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